quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Vou partilhar com vocês...



O meu envolvimento no CPAI foi (está a ser e será) um momento de reflexão pessoal sobre o meu papel enquanto Mediadora de Cursos de Educação e Formação de Adultos, processo este promotor da identidade pessoal e profissional de um indivíduo.
Neste momento estou a encerrar dois Cursos de Educação e Formação de Adultos dos quais fui Mediadora e Formadora de Aprender com Autonomia e Cidadania e Empregabilidade. No início deparei-me imediatamente com duas grandes dificuldades: Pontualidade e Assiduidade dos grupos. Eram discutidas nas reuniões pedagógicas estratégias de actuação... O que fazer?! Colocar notas no Dossier de Sumários? Descontar na bolsa de formação? Mostrar um ar zangado? Tudo isto foi experimentado...só que ainda ontem, a 3 semanas de irem tentar novamente a entrada no mercado de trabalho, dei por mim a falar com um grupo, exactamente com o mesmo discurso de há 12 meses atrás. O que falhou...! A Mediadora? Os Formadores? A Entidade?
Talvez não tenha falhado nada daquilo que nos proposemos fazer. Os cursos de Educação e Formação de Adultos têm como objectivo principal adquirir mais habilitações escolares e competências profissionais numa determinada área específica. No final quase todos os formandos os irão atingir. Mas quantos deles irão conseguir o que tanto se procura...estabilidade profissional? Digo com toda a certeza, muito poucos.
Ao longo deste ano, a maior parte das sanções que se aplicaram não tiveram frutos, pois foi assim que a maior parte deste público se habituou a viver. Rescisão de contrato aqui, rescisão de contrato ali... mais um dia... mais uma semana... mais um ano... mais um subsídio.
Aparecem formandos com quarenta ou cinquenta anos, em que a maior estabilidade profissional que conseguiram foram dois, três meses no mesmo local de trabalho. Para eles não é estranho pois também já é essa a imagem que guardam dos pais, da família, das pessoas mais próximas.
A maior parte das competências que adquiriram ao longo da sua vida, as que estão realmente enraizadas, são muitas vezes o oposto daquelas que lhe tentamos transmitir em apenas um ano, logo o sucesso tem muito poucas probabilidades de vir a acontecer.
Resultado: doze meses... vezes quinze formandos... vezes quinze bolsas de formação... tudo isto a multiplicar por todos os cursos EFA promovidos no nosso país. Para quê? Para obtermos apenas adultos com mais habilitações?! Assim não vale a pena!

Solução???
Aqui entra a importância do CPAI, Centro Permanente de Acolhimento e Inserção, em Portugal. Mais do que formar, mais do que avaliar, os CPAI têm como principal objectivo INTEGAR. Muitas vezes transguerdir as regras existentes em sociedade constitui uma compensação por todas as humilhações e frustações sofridas durante a infância e mesmo durante a vida adulta. No CPAI a História de Vida de cada indivíduo é o mais importante, tornando-se muitas vezes uma “mediação” para a formação. Não no sentido de a considerar como uma técnica de formação, mas como uma abordagem que produz orientações para ir ao encontro das expectativas / necessidades de cada Utente. Ou seja, as Histórias de Vida influenciam a natureza da formação que se produz. Planificar com exactidão uma sessão, um Atelier ou, até mesmo, um CPAI, torna-se praticamente impossível e não faz sentido! A entrada de um novo Utente, com uma nova História de Vida, pode alterar a dinâmica delineada até então. As Histórias de Vida mobilizam a construção / produção de Atitudes e a partir delas, articulando passado, presente e futuro, geram um processo de Auto-conhecimento. No CPAI atribui-se sentido às Experiências de Vida!!!
Por essa razão, enquanto Animadora do Atelier de Vida Quotidiana e Desenvolvimento Pessoal, preocupo-me em colocar cada Utente responsável pelo seu percurso de formação. Importa proporcionar-lhe os meios para saber em que recursos pessoais e em que competências se pode apoiar, de modo a descobrir novas ideias, novas maneiras de lidar consigo próprio e com o seu contexto sócio-cultural. Tento que, no decorrer do Atelier que dinamizo , cada um dos Utentes tome consciência dos seus trunfos e das suas limitações, das ideias que receberam durante toda a sua vida e das concepções que foram elaborando a seu respeito. Tudo isto coloca-os face à responsabilidade que têm na escolha das ATITUDES que ajudam a criar condições na qualidade das suas relações humanas, sociais e profissionais.

Há sensívelmente quatro semanas tivemos o primeiro Utente a querer mudar de Atelier, decisão essa apoiada pela equipa do CPAI. Não eram poucas as vezes que ouvia o A. a lamentar-se que o tempo não passava, que não se enquadrava minimamente na realidade de todos os outros colegas e que não gostava de estar ali. A presença dele devia-se apenas à obrigatoriedade imposta pela sua Técnica de Serviço Social. Na tarde em que formalmente se fez a passagem do A. para o Atelier de Tecnologias da Informação e Comunicação estava a decorrer o Atelier de Vida Quotidiana e Desenvolvimento Pessoal. Baseada na imagem de sacrifício em estar no Atelier que o A. sempre me transmitiu, foi-lhe dito que essa tarde ele já não tinha que participar na sessão. Tudo indicava até então que essa seria a vontade dele. Mas não... imediatamente mostrou a sua indignação por lhe estar a ser feita essa prosposta. Nunca assumindo que a sua vontade era estar com os seus novos amigos e que tal como todos os outros também lhe fazia bem estar ali disse: “Quero ficar! Não me façam perder a viagem até aqui”.
Para nós significou mais uma pequena vitória no CPAI. Engane-se quem pensa que os nossos Utentes estão connosco por serem benificiários de Rendimento Social de Inserção e caso não cumpram possam vir a ser penalizados. Essa sim é a situação inicial! Só que como todos eles têm uma Experiência de Vida marcada por insucessos, por fracassos, por imagens negativas, por uma ausência enorme de pertença a um grupo... ao chegarem ao CPAI todos se começam a sentir INTEGRADOS. Aqui começa-se a atingir um dos nossos grandes objectivos.

No final de três meses de trabalho no CPAI as expectativas iniciais foram superadas o que faz com que acredite cada vez mais neste projecto de VIDAS!