
Momentos antes do espectáculo de domingo, articulavam-se supostas combinações impossíveis. Férias de praia em meados de Novembro. Sardinhas assadas na noite de Natal. Gelados no Inverno. Ouvir Sigur Rós no Verão. Entre tantas outras. As hipóteses, simplesmente, não batiam certo.
A projecção para a noite ganhava novos contornos ao observar que quase metade dos transeuntes dentro do Pavilhão Atlântico fazia passear um par de chinelos acabadinhos de retirar do manto de areia de uma qualquer praia. Vestidos curtos, cores claras, padrões leves. Pormenores dispersos, mas que nunca tinham sido colocados a favor de conseguir conciliar os Sigur Rós e o Verão. Onde anda o cachecol que nos reconforta quando ouvimos o canto angelical vindo da Isândia?
Certo é que as hipóteses foram relegadas para segundo plano quando os Sigur Rós iniciaram o seu périplo por aproximações ao, nunca escutado, som divino. As condições atmosféricas (mais de 30º na capital) perderam notoriedade, e o espaço muito despido do Pavilhão Atlântico foi-se transformando em algo mais próximo. Não tão frio. Quase familiar.
O alinhamento passou perto do efectuado na última vez que a banda passou por Portugal, e os à partes foram introduzidos por elementos externos ao grupo. Uma secção de metais muito sublime, mas importante, que passeou-se em palco numa indumentária militar do fim do século passado, as Amina em nenúfares sónicos, uma lap steel enquadrada, e um conjunto de 14 músicos em extensa harmonia.
A noite de domingo serviu então para (re)confirmar uma cumplicidade da banda com o nosso País. A intensidade foi sendo descoberta a cada tema. A adesão foi quase total, salvo o renovar do desrespeito (tão lusitano) pelo silêncio sugestionado pela banda. Não que o espectáculo de domingo fosse como o rever de filme gasto. Nem as emoções são estáticas ao ponto de não se deixarem abalar por sugestões antigas. Mas que não será exagerado adiantar que este espectáculo enquadra-se num óptimo momento artístico. E isso, é irrefutável.